Há uma imagem que Mark Fisher recupera em Realismo Capitalista 1, a saber, a do viciado em controle. A figura vem de Burroughs, mas Fisher a usa para descrever algo que reconhecemos sem precisar de muita mediação teórica: aquele sujeito que não é exatamente coagido, mas que tampouco age com liberdade plena. Alguém que internalizou tão profundamente as exigências do sistema que já não consegue distinguir o que quer do que lhe foi ensinado a querer.
O argumento de Fisher parte de uma observação aparentemente simples: o poder contemporâneo opera menos pelo bloqueio do que pela postergação. Não se diz não — diz-se ainda não. A educação vira processo para toda a vida; o treinamento profissional nunca se encerra; o trabalho segue a pessoa para casa; a casa entra no escritório. As fronteiras não desaparecem, tornam-se irrelevantes, porque o controle já está do lado de dentro. Não há muro a escalar porque não há fora.
O que torna esse diagnóstico incômodo é precisamente sua recusa em apontar um culpado nítido. Não há opressor visível, não há violência declarada, não há contrato que se possa rasgar. O trabalhador que responde mensagens às onze da noite diz que gosta do que faz. O estudante que ocupa o fim de semana acumulando certificados acredita estar investindo em si mesmo. O profissional que leva o laptop nas férias por iniciativa própria não se sente explorado e é justamente aí que o argumento de Fisher ganha seu peso mais perturbador. O controle só funciona, ele insiste, se você for cúmplice. Não uma cumplicidade forçada, mas uma que não se reconhece como tal.
Isso tem consequências diretas para o modo como pensamos a educação — e vale demorar um pouco nesse ponto. A promessa da aprendizagem ao longo da vida, slogan onipresente desde as reformas educacionais das últimas décadas, soa como emancipação: ninguém está preso a uma formação inicial, todos podem se reinventar. Mas vista pela lente de Fisher, a promessa tem outro rosto. A educação permanente não é necessariamente uma conquista — pode ser também a substituição da escola finita pela dívida infinita. Sempre há mais um curso, mais uma competência, mais uma atualização urgente. O sujeito nunca está formado porque o mercado nunca está satisfeito. A postergação indefinida, aqui, não é um defeito do sistema; é seu princípio de funcionamento.
O que Fisher faz com maestria em Realismo Capitalista é mostrar que esse estado de coisas não se sustenta apenas pela força ou pelo engano, sustenta-se pela dificuldade crescente de imaginar qualquer coisa fora dele. É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, ele escreve, numa frase que ficou famosa não porque seja hiperbólica, mas porque captura algo que muita gente sente sem conseguir formular. A sensação de que as coisas são como são porque não poderiam ser de outro jeito e que questionar isso é ingenuidade ou nostalgia.
Publicado originalmente em 2009, o livro tem menos de 100 páginas e uma densidade que desmente o tamanho. Fisher não escreve como acadêmico que precisa blindar cada afirmação, nem como panfletário que dispensa as evidências. Escreve como alguém que está genuinamente perturbado com o que vê e que confia no leitor para acompanhar o raciocínio sem ser conduzido pela mão. Essa combinação, rara, é parte do que faz o texto continuar circulando e sendo relido.
A questão que o livro deixa aberta, e que talvez seja a mais honesta a carregar, é se ainda existe algum gesto que escape à lógica da postergação indefinida. Alguma forma de atenção, algum modo de habitar o tempo, alguma prática coletiva que não seja imediatamente capturada como mais uma etapa de um processo sem fim. Fisher não oferece resposta. Mas a pergunta, formulada com essa precisão, já é alguma coisa.
- FISHER, Mark. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? São Paulo: Autonomia Literária, 2020. ↩

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