Há uma cena que se repete nas redes sociais com frequência suficiente para deixar de ser coincidência: alguém fotografa uma pilha de livros sobre a cama, numa sexta-feira à noite, e a legenda carrega aquela satisfação de quem cumpriu um dever, como se descansar precisasse, para ser legítimo, vir acompanhado de produção intelectual. Outra variação: a pessoa que sai da academia e anuncia, com um sorriso de alívio, que “hoje tá pago”. Pago a quem? Por qual dívida? A pergunta parece ingênua, mas é aí que a coisa fica interessante, porque revela uma economia moral do tempo que naturalizamos sem perceber.
Byung-Chul Han chamou essa condição de sociedade do desempenho. Em “Sociedade do Cansaço”, ele argumenta que a lógica contemporânea não opera mais pela coerção externa — o patrão que vigia, o chefe que pune —, mas por uma compulsão internalizada: o sujeito, nessa sociedade, se autoexplora voluntariamente, convicto de que cada hora não produtiva é uma hora desperdiçada. O cansaço, nesse modelo, não é sinal de fracasso. É prova de comprometimento. A exaustão vira currículo.
Mas Han não está sozinho aqui. Jonathan Crary, em “24/7 – capitalismo tardio e os fins do sono” chega ao mesmo ponto por outro caminho: o capitalismo contemporâneo não apenas coloniza o tempo de trabalho, mas ataca as últimas zonas de resistência da existência humana. O sono, essa necessidade biológica irredutível, essa interrupção que nenhuma retórica de produtividade conseguia eliminar, passa a ser tratado como ineficiência. Crary lembra que o ser humano que dorme oito horas é, do ponto de vista do mercado, um ser humano que desperdiça um terço da sua vida. Não por acaso, a indústria de wellness, de suplementos e de técnicas de “sono otimizado” cresceu exatamente enquanto o tempo médio de descanso das populações urbanas encolhia.
O que une as duas leituras — e o que nos faz voltar à cena da pilha de livros — é a percepção de que o problema não é o excesso de trabalho em si, mas a colonização do imaginário sobre o que conta como tempo bem gasto. O lazer passou a exigir justificativa. Não basta descansar: é preciso descansar de forma produtiva, com um podcast sobre empreendedorismo no ouvido ou um livro de desenvolvimento pessoal na mão. O ócio puro, aquele que não entrega nada, que não gera conteúdo, que não melhora ninguém, ficou com má reputação.
Cabe ressaltar que isso não é apenas uma questão de comportamento individual. É uma trama mais ampla, em que o neoliberalismo reorganiza não só as relações de trabalho, mas as categorias com que avaliamos a nós mesmos. Han diria que o sujeito do desempenho não precisa de vigilância externa porque já incorporou o olhar do mercado como seu próprio olhar. A culpa que alguém sente ao “não fazer nada” num domingo à tarde não vem de nenhum chefe real, vem de uma subjetividade moldada para tratar o tempo como capital a ser investido, nunca como experiência a ser simplesmente vivida.
É difícil não notar o paradoxo: vivemos numa época em que se fala mais do que nunca em saúde mental, autocuidado e equilíbrio e ao mesmo tempo a ansiedade de produção nunca foi tão visível, tão estetizada, tão compartilhada. O burnout ganhou nome bonito em inglês e passou a ser exibido como medalha. “Estou destruído” virou sinônimo de “estou comprometido”. Há algo de perturbador nessa gramática, em que até o sofrimento pelo excesso de trabalho é reapropriado como prova de seriedade.
A pilha de livros na sexta à noite não é um crime, claro. O problema não é ler, é a necessidade de mostrar que se lê, de transformar o descanso em performance e a performance em identidade. Crary sugere que as zonas de experiência que escapam à lógica do mercado, a saber, o sonho, o devaneio, a conversa sem propósito, o tédio, são exatamente as que precisam ser recuperadas como espaços de resistência. Não como fuga, mas como recusa de uma narrativa que trata toda hora não monetizável como hora perdida.
A questão que fica, e que não tem resposta fácil, é saber se ainda conseguimos distinguir entre o desejo genuíno de ler numa sexta à noite e a compulsão de demonstrar que somos o tipo de pessoa que lê numa sexta à noite. Ou se, a essa altura, essa diferença ainda faz algum sentido.

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