Há uma cena em The Lunchbox, filme de Ritesh Batra lançado em 2013, que dura talvez quinze segundos e não parece ter qualquer importância para o desenrolar do filme. Saajan Fernandes, um homem de meia-idade às vésperas da aposentadoria, se arruma no banheiro para encontrar Ila, a mulher com quem troca bilhetes há semanas dentro de uma lancheira que chegou a ele por engano. Em cena, o espelho, o gesto de quem se prepara para algo incomum. Mas o que acontece de fato dentro daquele banheiro só chegamos a saber quando Saajan escreve a Ila: que sentiu um cheiro familiar, o cheiro do avô, e que percebeu, um instante depois, que era o dele.
Ele nomeia um cheiro, dá vida a uma lembrança e se vê no espelho (metáfora e realidade se abraçam), não mais criança que lembra do avô, mas o homem que o avô um dia foi. O bilhete não é um relato: é o lugar onde o reconhecimento se completa. Porque o cheiro do avô não era uma memória afetiva qualquer, era o cheiro da velhice que o menino percebia no velho, com aquela mistura de ternura e distância que só a infância consegue sustentar. Agora esse cheiro é seu. E ele só consegue dizer isso por escrito, para alguém que ainda não conhece pessoalmente.
Saajan não está diante de um espelho que o envelhece; está diante de um olfato que o denuncia. O corpo guarda registros que a consciência prefere adiar. E o filme entende que há momentos em que esse adiamento termina: não em forma de revelação dramática, mas de um cheiro num banheiro numa manhã qualquer.
Mas The Lunchbox não é um filme sobre a velhice como declínio. É, antes, um filme sobre o que ainda é possível quando se está perto do fim de uma fase – ou perto do que parece ser o fim. Saajan está se aposentando, Mumbai vai continuar sem ele no escritório, e há uma sensação constante de que sua vida já aconteceu. A correspondência com Ila, iniciada por acidente por meio do sistema de entrega de marmitas dabbawalas, irrompe nesse cotidiano como algo que ele não sabia estar esperando. Não é exatamente romance – ou é, mas de um tipo que recusa a sentimentalidade fácil. É a descoberta de que ainda há interlocutores possíveis, ainda há alguém do outro lado disposto a responder.
O que o filme propõe, com uma sutileza que o distingue da produção mainstream de qualquer cinematografia, é que envelhecer não é apenas uma questão biológica, mas uma questão de endereçamento. A quem nos dirigimos? Quem ainda nos aguarda? O sistema dabba, que move centenas de milhares de marmitas por Mumbai sem praticamente nenhum erro, torna-se a metáfora perfeita para uma cidade que funciona com precisão mecânica enquanto as pessoas dentro dela derivam, se desencontram, se perdem. A lancheira que chegou ao homem errado chegou, talvez, ao homem certo.
Há algo quase arendtiano nessa construção, a saber, a ideia de que a vida humana só adquire sentido quando existe um mundo compartilhado, um espaço de aparecimento entre as pessoas. Saajan havia se retirado desse espaço muito antes da aposentadoria. Viúvo, sem filhos próximos, integrado apenas pela rotina burocrática, era alguém que já havia, em certo sentido, desaparecido do mundo. A troca de bilhetes o faz reaparecer: para Ila, e para si mesmo. E é significativo que esse reaparecimento se dê pela escrita e não pela fala, não pelo encontro, mas pela linguagem que atravessa o tempo entre um almoço e outro.
A cena do banheiro ganha outro peso quando lida nessa chave. O cheiro do avô não é apenas o sinal do envelhecimento físico: é o rastro de alguém que também havia se recolhido, que também existia nas margens da visibilidade cotidiana. Reconhecer esse cheiro em si mesmo é reconhecer uma herança que não é só genética, é existencial.
Talvez seja isso que nos comove em filmes como este: não a resolução dos impasses, mas o momento exato em que um personagem percebe que ainda está, de alguma forma, vivo para a surpresa. Há algo de dignidade nisso – e também algo de urgência. O cheiro que Saajan pensou ser do avô nos pergunta, sem gentileza, o que estamos fazendo com o tempo que ainda não cheira assim.

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