Arqueologias do cotidiano

Quem vigia os livros didáticos? O agronegócio entrou na escola — e veio de mansinho

Este texto apresenta ideias centrais de um artigo acadêmico que estou finalizando para submissão em periódico científico. A versão completa, com aparato teórico, análise documental e referências, estará disponível em breve.

Em 2020, no meio da pandemia, um grupo de mães ligadas ao agronegócio enviou uma carta de 16 páginas para uma escola particular de Barretos, em São Paulo. O alvo: o material didático que, na visão delas, apresentava uma imagem injusta e ideológica do campo brasileiro.

Nada incomum à primeira vista. O que chama atenção é o tom da carta. Não havia confronto, denúncia ou ameaça. Havia preocupação. Havia dados. Havia citações da EMBRAPA. Havia mães dizendo que só queriam o melhor para seus filhos.

Esse grupo viria a se tornar o “De Olho no Material Escolar” (DONME) — uma associação que, em poucos anos, conseguiu audiência com o Ministério da Educação, articulação com 34 organizações (71% delas empresas do agronegócio), pressão sobre o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) e presença em secretarias de educação de diversas regiões do país.

Como isso foi possível? É essa pergunta que orienta o artigo que estou escrevendo.

Não é a primeira vez — mas desta vez é diferente

Quem acompanha o debate educacional brasileiro conhece o Movimento Escola Sem Partido (MESP). Criado em 2004 e ascendente a partir de 2014, o MESP operava pelo confronto: expunha professores nas redes sociais, incentivava denúncias, propunha projetos de lei para restringir o que podia ser ensinado. Era barulhento, polarizante e, no fim, juridicamente derrotado — o STF declarou inconstitucionais as leis inspiradas no movimento.

O DONME aprendeu com esse fracasso.

Onde o MESP denunciava, o DONME dialoga. Onde o MESP intimidava, o DONME parceria. Onde o MESP falava em “doutrinação ideológica”, o DONME fala em “evidências científicas” e “qualidade educacional”. E onde o MESP atacava o professor, o DONME mira o currículo — os livros, os conteúdos, os critérios de avaliação do PNLD.

Essa mudança de estratégia não é detalhe. É o coração do problema.

Pais preocupados ou lobby corporativo?

Um dos pontos mais intrigantes do DONME é justamente sua ambiguidade constitutiva. O movimento é, ao mesmo tempo, expressão de preocupações genuínas de famílias do agronegócio e estratégia sofisticada de intervenção corporativa sobre a educação pública.

Pense no episódio da carta de Barretos. Um dos trechos que mais chama atenção é a crítica ao fato de o material incentivar as crianças a desenvolverem empatia pelos povos indígenas — a serem “estimuladas a se colocar na posição de uma família indígena que teve suas terras retiradas para plantação de cana”. Para os autores da carta, isso não era educação: era “ideologia”.

Mas aqui está o nó: ao recusar que crianças se imaginem no lugar de famílias indígenas desapropriadas, o movimento não está defendendo a neutralidade. Está escolhendo qual perspectiva sobre o campo brasileiro pode circular na escola — e qual deve ser silenciada.

Isso tem um nome: interdição discursiva. E ela opera de forma muito mais eficaz quando se apresenta com o rosto de quem cuida, não de quem controla.

A captura que não parece captura

No artigo, proponho a categoria analítica de “captura curricular por cuidado” para descrever esse fenômeno.

A ideia é simples: quando a intervenção corporativa sobre o currículo se apresenta como demanda parental legítima, como preocupação com a qualidade do ensino, com a formação dos filhos, com a precisão científica dos conteúdos , ela se torna muito mais difícil de questionar. Quem vai criticar pais preocupados com a educação dos seus filhos?

É essa arquitetura discursiva que torna o DONME estrategicamente mais eficaz que o MESP. Não porque seus objetivos sejam diferentes — o controle sobre o que pode ser ensinado nas escolas é o mesmo —, mas porque seus meios são muito mais difíceis de combater.

O DONME não precisa ganhar debates públicos. Ele opera nos bastidores: nos critérios técnicos de avaliação de livros didáticos, nas parcerias com secretarias de educação, nos programas de “formação continuada” de professores — como o projeto Mestres no Agro, implementado em parceria com o governo de São Paulo, que leva educadores para conhecer “na prática” o setor.

O que está em jogo

Quando o DONME questiona conteúdos sobre desmatamento, conflitos fundiários e direitos dos povos indígenas, não está apenas defendendo uma visão sobre o campo. Está interferindo em algo mais fundamental: a capacidade da escola de formar pessoas capazes de pensar criticamente, reconhecer diferentes perspectivas e imaginar futuros distintos do presente.

Uma escola que só pode ensinar uma versão do desenvolvimento nacional não é uma escola plural. É uma escola capturada.

E isso tem consequências que vão além da sala de aula. A democracia depende de cidadãos capazes de reconhecer a legitimidade do conflito, de conviver com o diferente, de questionar narrativas hegemônicas. Quando esses aprendizados são interditados já na infância — não pelo grito, mas pelo sussurro do cuidado —, o custo é longo e silencioso.

Uma pesquisa em andamento

O artigo que estou finalizando analisa as condições históricas, políticas e discursivas que tornaram possível a emergência do DONME a partir de uma perspectiva foucaultiana. O argumento é que o movimento não surgiu do nada: ele é o resultado de uma convergência entre o repertório do MESP, a atuação prévia da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) no campo educacional desde 2001, a ascensão do populismo reacionário no Brasil pós-2016 e as condições abertas pela pandemia, que levou os materiais didáticos para dentro dos lares e os tornou visíveis para grupos que já tinham vocabulário e rede institucional para contestá-los.

Essa convergência não era inevitável. E é justamente por isso que ela pode ser questionada e combatida.

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