Michel Foucault não foi apenas um filósofo; para muitos de nós, ele foi um divisor de águas. O historiador Paul Veyne chegou a dizer que ele foi o acontecimento capital do século XX no mundo das ideias. E no Brasil, essa presença não é apenas forte, ela é avassaladora: entre o final dos anos 80 e 2010, quase um terço das teses e dissertações que mencionaram o pensador estavam mergulhadas no campo da educação. Mas, diante de números tão expressivos, fica a pergunta: o que estamos fazendo com o legado dele?
No artigo onde traça esse itinerário, Julio Groppa Aquino1 nos convida a olhar para o espelho. Ele mostra como clássicos como Vigiar e Punir e História da Sexualidade I viraram “livros de cabeceira” para entender a escola. No entanto, ele nos lança um desafio incômodo: será que estamos realmente pensando com Foucault ou apenas usando o nome dele como um selo de qualidade para validar o que já pensávamos?
A virada que mudou tudo: as pesquisas pós-críticas
A relação da educação brasileira com Foucault deu um salto nos anos 90, graças ao esforço de nomes como Tomaz Tadeu da Silva e Alfredo Veiga-Neto. Eles foram os arquitetos do que passamos a chamar de pesquisas pós-críticas.
Diferente daquela crítica mais tradicional e engessada, esse novo jeito de pesquisar começou a tratar o currículo como um território vivo de lutas discursivas. Não se tratava mais apenas de “ensinar conteúdo”, mas de entender como as palavras e as coisas moldam quem somos dentro e fora da sala de aula.
O “Nó” da governamentalidade
Se existe um conceito que “pegou” entre nós, foi o de governamentalidade. Ele virou a lente favorita para enxergar a educação como uma verdadeira “arte de governar”. É através dele que conseguimos analisar hoje, de forma afiada, desde as políticas de inclusão até essa febre do empreendedorismo e das pedagogias do fitness que tentam modular nossos corpos e mentes.
Nossa escrita: o ensaio como conversa e confronto
Um detalhe curioso que Aquino nota é que o pesquisador brasileiro adora um ensaio. Quase dois terços da nossa produção foucaultiana não são apenas relatórios de dados, mas textos que tentam “falar” com o autor para resolver problemas do presente. É uma escrita que tenta ser honesta: em vez de apenas aplicar uma fórmula, buscamos nas ideias dele um ponto de apoio para enfrentar o que nos parece intolerável hoje.
Conclusão: por uma “fidelidade negativa”
Ao final dessa jornada bibliográfica, a sensação é de que estamos em uma corda bamba. Existe um Foucault “ornamental” circulando por aí — aquele que aparece em citações infinitas e decorativas, quase como um amuleto acadêmico para parecer inteligente.
Mas o alerta de Aquino, ecoando vozes como a de Veiga-Neto, é que Foucault exige de nós uma “fidelidade negativa”. Ser fiel a ele não é segui-lo como um dogma ou um catecismo, mas ter a coragem de ser “antropofágico”: digerir o autor, transformá-lo e, se necessário, ir além dele para responder às nossas próprias urgências.
Ler esse itinerário é, no fundo, um chamado para resgatar o Foucault “samurai”: aquele que não aceita ser domesticado e que continua nos provocando a pensar, de fato, de outros modos
- AQUINO, Julio Groppa. A difusão do pensamento de Michel Foucault na educação brasileira: um itinerário bibliográfico. Revista Brasileira de Educação, v. 18, p. 301–324, 2013. ↩

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