Arqueologias do cotidiano

Quando a ciência se torna alvo: “Ciência na Mira” expõe a perseguição a pesquisadores brasileiros

O documentário “Ciência na Mira”, dirigido por Rafael Figueiredo e disponível na plataforma Curta On!, apresenta um retrato perturbador e necessário sobre o que acontece quando a produção científica bate de frente com interesses políticos e econômicos no Brasil contemporâneo.

O filme acompanha as trajetórias de três cientistas brasileiros que tiveram suas vidas drasticamente transformadas após realizarem pesquisas cujos resultados contrariaram narrativas governamentais e interesses corporativos: Marcus Lacerda, pesquisador da área de malária que coordenou estudos sobre cloroquina no tratamento da Covid-19; Larissa Bombardi, geógrafa da USP especialista em agrotóxicos; e Débora Diniz, antropóloga e bioeticista que atua pela descriminalização do aborto.

Quando os dados científicos tornam-se inconvenientes

O que une essas três histórias não são apenas suas áreas de pesquisa, mas o padrão de perseguição que enfrentaram: ameaças de morte, invasão de privacidade, campanhas de desinformação nas redes sociais, e a necessidade de abandonar o país para garantir sua segurança e a de suas famílias.

Marcos Lacerda, ao publicar os primeiros dados sobre os limites de dosagem segura da cloroquina para Covid-19, viu seu trabalho científico ser deliberadamente distorcido e transformado em alvo de fake news. O pesquisador passou a ser acusado de assassinato, teve dados pessoais expostos e precisou de escolta policial.

Larissa Bombardi, após a publicação de seu Atlas de Agrotóxicos e especialmente depois de lançá-lo em inglês na Europa, começou a receber ameaças cada vez mais específicas. O assalto à sua residência, no qual levaram principalmente seu computador com anos de dados de pesquisa, foi o limite que a levou ao exílio na Bélgica.

Débora Diniz, pela atuação em defesa da descriminalização do aborto, teve que deixar a sala de aula na Universidade de Brasília quando as ameaças se tornaram tão graves que incluíam avisos de massacre em eventos acadêmicos.

O preço da integridade científica

“Ciência na Mira” não é apenas sobre perseguição individual. O documentário expõe uma estratégia deliberada de descrédito da ciência brasileira, na qual pesquisadores são transformados em inimigos quando seus resultados contradizem agendas políticas ou interesses econômicos.

A trajetória de Ricardo Galvão, físico e ex-diretor do INPE, ilustra esse mecanismo: ao defender os dados sobre desmatamento na Amazônia produzidos pela instituição, foi demitido após ter seu trabalho publicamente atacado pela presidência da República.

O que o filme revela é profundamente inquietante: em um país que já é um dos que mais mata defensores de direitos humanos no mundo, a ciência e seus produtores também se tornaram alvos. O terrorismo psicológico, as ameaças veladas, a exposição de dados pessoais e familiares não são acidentes, mas instrumentos deliberados de silenciamento.

Um documentário necessário

Rafael Figueiredo constrói uma narrativa que equilibra a dimensão pessoal do sofrimento desses cientistas com a análise política do fenômeno. Vemos não apenas as ameaças, mas também as estratégias de resistência: a solidariedade da comunidade científica, o litígio estratégico, a reinvenção profissional no exílio, o uso das redes sociais para criar novas formas de ensino e divulgação científica.

“Ciência na Mira” é um registro fundamental para compreendermos este momento da história brasileira. Mais que isso, é um alerta: quando a ciência é atacada, não são apenas pesquisadores individuais que sofrem, mas toda a sociedade perde sua capacidade de tomar decisões informadas sobre questões fundamentais – da saúde pública à preservação ambiental, dos direitos reprodutivos ao desenvolvimento sustentável.

O documentário está disponível na Curta On! e merece ser visto não apenas por quem se interessa por ciência, mas por todos que se preocupam com democracia, liberdade acadêmica e o futuro do Brasil.

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