Arqueologias do cotidiano

Ken Loach: O cinema como trincheira contra o capitalismo moderno

Após seis décadas de uma carreira dedicada a dar voz aos invisíveis, o cineasta britânico Ken Loach confirmou que The Old Oak (2023) marcou sua despedida definitiva das telas. Aos 87 anos, o diretor deixa um legado que não é apenas cinematográfico, mas um manifesto político e social.

Sua trilogia final — composta por “Eu, Daniel Blake” (2016), “Você Não Estava Aqui” (2019) e “The Old Oak” (2023) — funciona como um poderoso testamento de sua visão, desconstruindo o capitalismo em suas formas mais recentes e perversas.

O Capitalismo Burocrático: O labirinto da dignidade em “Eu, Daniel Blake”

Vencedor da prestigiada Palma de Ouro em Cannes (2016), o filme expõe a jornada de Daniel Blake, um carpinteiro que, após um ataque cardíaco, se vê enredado no sistema de bem-estar social do Reino Unido.

Aqui, Loach dialoga diretamente com Max Weber. O filme ilustra a “jaula de aço” da racionalidade: um sistema burocrático que, na busca por uma “eficiência” digital impessoal, acaba por desumanizar o indivíduo. Para Daniel, a burocracia não é um suporte, mas uma ferramenta de opressão que transforma direitos básicos em uma batalha exaustiva.

O Capitalismo da “Gig Economy”: A falsa liberdade de “Você Não Estava Aqui”

Nesta obra de 2019, Loach e o roteirista Paul Laverty denunciam a exploração por trás da “uberização”. A história de Ricky, um entregador que se endivida para comprar uma van, revela a armadilha da falsa autonomia.

  • Pela lente de Shoshana Zuboff: O filme exemplifica o “Capitalismo de Vigilância”, onde cada movimento de Ricky é monitorado por algoritmos que extraem valor de cada segundo de seu trabalho.
  • Pela lente de Byung-Chul Han: Vemos a “Sociedade do Desempenho”. Ricky não é apenas explorado por um chefe, mas levado à autoexploração. A liberdade ilusória do “seja seu próprio patrão” resulta em burnout e na desintegração dos laços familiares.

O Capitalismo do Desmantelamento Social: Resistência em “The Old Oak”

Em sua suposta despedida, Loach volta o olhar para uma vila mineira abandonada pelo progresso industrial. A tensão surge com a chegada de refugiados sírios, mas o diretor, com sua sensibilidade habitual, evita vilanizar os moradores locais.

Inspirado pelo pensamento de Karl Marx, Loach apresenta a xenofobia como um subproduto do abandono econômico — uma “falsa consciência” onde o ressentimento causado pelo sistema é direcionado erroneamente a outros oprimidos. A saída, para Loach, é a solidariedade de classe: a amizade entre o dono do pub, TJ, e a refugiada Yara, prova que a união contra o opressor comum é a única saída possível.

Um Legado de Resistência

A trilogia final de Ken Loach resume os grandes males do nosso tempo:

  1. A desumanização burocrática do Estado.
  2. A exploração digital disfarçada de flexibilidade.
  3. O veneno da xenofobia nascido do desmantelamento social.

Ken Loach se despediu do cinema, mas sua obra permanece como um convite urgente: enxergar as consequências humanas do sistema e, acima de tudo, resistir.

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